Rubens Lima

Um poeta que é apaixonado pelo que é e pelo que faz.

Textos


MEMÓRIA DE UM VELHO PEIXEIRO


 
 
 
 
 

 

Três horas da manhã,
É mais um dia que vem...
Ela e meus filhos dormem,
Tomo um café requentado
E vou pegar o trem.

 

 


Ainda está escuro,
Muito tenho que caminhar,
No trajeto até a estação
Sob a garoa fina e fria,
Me ponho a pensar.

 

 


Não,

Não quero isso para meus filhos,
Deles vou me orgulhar,
Quero vê-los estudando e formados,
Para que não precisem
Da Central do Brasil

À Praça-quinze
Todos os dias caminhar.

 

 


As barcas chegam com os peixes,
Ainda os vejo saltitar...
Faço meu pedido,
Embalo-os cautelosamente,
E retorno pelo mesmo lugar.

 

 


Seis-horas da manhã,
Chego em Queimados, na estação,
Estou cansado e sonolento,
Em casa todos dormem,
Mas não me esqueço do pão.

 

 


Não posso reclamar,
Sou movido pela fé.
Meu cachorro

Me recebe radiante.
Josefa com seu sorriso motivante,
Me recepciona com o café.

 

 


No velho carrinho de mão
Me ponho a refazer
O ritual de todos os dias.
Para educar meus filhos,
E por fim nos manter.

 

 


"Peixeiro, me dá um peixe!"
Ouço o menino falar.
Respondo: "Vivo ou morto?"
 "Morto"
Só tem vivo, não vai ganhar...

 

 


Com a balança de mão aferida,
A freguesia nunca reclamou.
Nunca tenho, nem dou prejuízo!
Assim a freguesia do bairro Paraíso! 
Um peixe fresco sempre degustou.
 

 


Corvina, sardinha e robalo.
Cavalinha, chalerete e xaréu...
São os peixes mais apreciados
Que o povo menos afortunado,
Compra sempre a granel.

 

 


Era assim todos os dias,
Sua rotina para nos manter!
Mais foi cedo, muito cedo,
Às três e vinte da manhã,
O meu funesto primeiro sofrer.

 

 


Eu tinha quatorze anos
Quando fui acordado

Para socorrer.
O meu amado velho peixeiro,

Com a funesta notícia

Que seu valente Coração

Havia parado de bater.

 

 

 

Eternas saudades

Meu velho peixeiro.

Rubens Lima
Enviado por Rubens Lima em 24/04/2012
Alterado em 07/02/2026


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras